Mestre em Genética que iniciou a vida científica em Sergipe tem artigo publicado na Science

28/07/2020


Há 21 anos o Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP) vem auxiliando na descoberta de novos talentos para a ciência brasileira e na formação de recursos humanos de excelência. Um desses talentos é a Mestre em Genética e Biologia Molecular pela Unicamp, Mariene Ribeiro Amorim que, no ano de 2012 deu os primeiros passos no mundo da pesquisa como aluna de Iniciação Científica no Laboratório de Materiais do ITP (LBMat), sob a orientação da Dra. Francine Padilha.

Oito anos depois Mariene Amorim integra um grupo de pesquisa da Unicamp que teve publicado na Revista Science, no dia 20 de julho, o artigo “Evolution and epidemic spread of SARS-CoV-2 in Brazil”. A Science é uma das principais revistas científicas do mundo, editada pela American Association for the Advancement of Science (Associação Americana para o Avanço da Ciência) e possui um público leitor estimado em 570 mil pessoas em todos os continentes.

Para se ter ideia da importância e do rigor da Science, apenas 7% dos artigos a ela submetidos são publicados. Atualmente, Mariene está em doutoramento e realizando um estudo genômico epidemiológico e de multiômicas para a pesquisa de fatores associados ao desenvolvimento de doença grave em pacientes positivados para a COVID-19, em Campinas e Região, sob a orientação do Prof. Dr. José Luiz Proença Módena (que também foi o orientador do mestrado).

“É uma satisfação e um sentimento de gratidão enormes, pois, esse trabalho traz informações valiosas para entendermos a propagação do novo coronavírus no Brasil, que atualmente está entre os mais afetados pela pandemia”, declarou a pesquisadora, que integra a força tarefa montada pela Unicamp para atuar contra o novo coronavírus. De acordo com Mariene Amorim, o fato de o artigo ter sido publicado em uma revista tão importante ajuda a levar a informação para um grande número de pessoas em todo o mundo.

“Além disso esse trabalho, que foi um estudo multicêntrico, é um exemplo de cooperação entre instituições de ensino nacionais e internacionais e mostra, ainda, que brasileiros também são capazes de fazer pesquisa de qualidade. Foi um prazer enorme poder participar da confecção do artigo”, comentou.

O texto publicano na Science mostra que as medidas de isolamento e distanciamento sociais adotadas no início da pandemia no Brasil ajudaram a reduzir o potencial de propagação do vírus, representado pelo número efetivo de reprodução (R), que poderia ter sido muito maior. Porém, as medidas adotadas não foram suficientes e o vírus continuou se propagando, por isso, a cientista aproveita o momento para pedir, àqueles que puderem, que mantenham o isolamento social, que todos usem corretamente as máscaras e que higienizem as mãos.

“Se cuidem e apoiem a pesquisa científica em nosso país! Não acreditem em qualquer notícia postada nas redes sociais sobre “cura” da COVID-19, não se automediquem e tenham mais empatia. Existe muita gente, no mundo inteiro, estudando e buscando respostas reais. Sempre que der vejam e compartilhem as notícias e os artigos de fontes confiáveis. Não propaguem Fake News. Sejam fortes!”, orientou a pesquisadora.

Além da Science, Mariene Amorim também já teve outros trabalhos publicados em revistas científicas de alto impacto. Em 2017 o artigo “Specific Biomarkers Associated With Neurological Complications and Congenital Central Nervous System Abnormalities From Zika Virus Infected Patients in Brazil” foi publicado no The Journal of Infectious Diseases. Em 2018 a Frontiers in Microbiology publicou o artigo “HU-Lacking Mutants of Salmonella enterica Enteritidis Are Highly Attenuated and Can Induce Protection in Murine Model of Infection”. No ano seguinte os estudos sobre o Zika Vírus estavam no The Journal of Infectious Diseases com o título “ZIKV-Specific NS1 Epitopes as Serological Markers of Acute Zika Virus Infection”.

Este ano, antes da publicação na Science, o nome da Mestre em Genética figurava no Viruses em virtude da divulgação do artigo “Oropouche Virus Infects, Persists and Induces IFN Response in Human Peripheral Blood Mononuclear Cells as Identified by RNA PrimeFlow™ and qRT-PCR Assays”. “As publicações sempre contam muito para o nosso currículo, e publicar bons trabalhos, com parcerias nacionais e internacionais é importante na carreira de quem faz parte do mundo acadêmico. As publicações mostram as nossas capacitações e interesses, nossa perseverança, aptidão para trabalhar em grupo, de realizar colaborações e de conseguir aprovar projetos, além de trazer reconhecimento”, enfatizou.

Fonte: Ascom do Instituto de Tecnologia e Pesquisa

Fotos: Arquivo pessoal

ANTES DO CORONAVÍRUS

Alunos do LEVE/Unicamp, laboratório do qual Mariene faz parte

Antes do surgimento da pandemia Mariene Amorim trabalhava em um projeto com vírus emergentes de grande importância para a saúde pública brasileira. Aliás, desde o mestrado que esta é a linha de pesquisa/trabalho seguida por ela. Antes de abraçar a causa do novo coronavírus a Mestre em Genética e Biologia Molecular estudava o arbovírus emergente Oropouche, que possui alta capacidade de propagação e é encontrado em várias regiões do Brasil, principalmente na Norte e no Nordeste. Transmitido por uma mosca hematófaga (que se alimenta de sangue), causa a doença chamada de febre do Oropouche, que tem sintomas parecidos com os da Dengue e pode apresentar complicações graves, como meningite e encefalite.

O trabalho de mestrado da jovem pesquisadora foi desenvolvido no Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (LEVE) da Unicamp, onde ela investigou a capacidade do vírus em infectar leucócitos humanos e a resposta imune inata frente à infecção. “Foi um trabalho que nunca visou a produção de produtos nem patentes, mas, que trouxe alguns desafios, como por exemplo, o fato de não termos muitas opções de anticorpos anti-Oropouche no mercado para o estudo desse vírus. Pensamos em aplicar uma técnica que mistura hibridização in situ e branched DNA para investigar por citometria de fluxo e microscopia confocal a cinética de replicação em células permissivas, bem como, verificar se o OROV podia infectar leucócitos humanos como células T e monócitos. Esse trabalho foi publicado no mês de junho na revista Viruses”, informou a pesquisadora.

Questionada se poderia engrossar a lista dos pesquisadores que tiveram que optar pela “fuga de cérebros” do Brasil para continuar na profissão, Mariene Amorim disse que, em princípio, sairia apenas para estudar e que futuramente gostaria de ir para o exterior para aprender mais sobre a técnica de sequenciamento que tem utilizado nos estudos epidemiológicos.

“No momento estou focada em responder as perguntas do meu projeto de doutorado e ajudar na Força Tarefa Contra a COVID-19. Estou tendo uma experiência nova com bioinformática, ainda engatinhando e com muita coisa para aprender, e pretendo continuar estudando essa área um pouco mais. Porém, nunca se sabe... o Brasil não é um bom exemplo de acolhimento e valorização do trabalho de cientistas. Mas, quem sabe as coisas mudem um pouco depois desse caos!”, observou.

O CAMINHO PERCORRIDO

Aos 27 anos, Mariene Amorim faz parte de uma equipe treinada para trabalhar em um laboratório de biossegurança nível 3, aquele onde há microrganismos que acarretam elevado risco individual e onde são realizados experimentos que contêm o vírus viável (com potencial infeccioso). Atualmente, dentre os vários trabalhos realizados está o de isolar vírus de amostras de pacientes, analisar infecções de vários tipos de células e investigar a ação de fármacos. Porém, até chegar ao nível atual, ela percorreu um longo caminho que fora iniciado aos 20 anos de idade, no 3° período da graduação em Biomedicina, na Universidade Tiradentes, em Aracaju/SE.

“O primeiro projeto no qual trabalhei, no Laboratório de Biomateriais do ITP, estudava a aplicação de nanocarreadores dendriméricos no transporte de fármacos. Também participei como IC de um projeto de aplicação de dendrímeros de poliamidoamina como nanocarreadores de vacinas peptídicas contra Chlamydia trachomatis. Mais para a frente, em 2014, participei como IC de um projeto que estudava nanocarreadores poliméricos de fármacos para o combate a biofilmes de agentes patogênicos”, relembra a pesquisadora.

Mas, além dos compromissos assumidos com os orientadores, ela também fazia questão de participar, voluntariamente, de outros projetos desenvolvidos no LBMat e foi desta maneira que participou de estudos sobre extratos naturais e nanopartículas de prata; do desenvolvimento de testes diagnósticos sorológicos para linfadenite caseosa; e ajudou na manutenção do banco de Xanthomonas campestris do laboratório. Ela lembra, ainda, que buscou ser uma estudante de Iniciação Científica porque sempre teve a vontade de auxiliar o próximo, de entender doenças e ajudar no desenvolvimento de saídas terapêuticas.

“Meu tempo como IC no ITP foi de muitas descobertas. Fiz amigos, conheci muitas pessoas aplicadas e estudiosas. Foi onde aprendi a planejar experimentos, a pesquisar artigos científicos, escrever no livro ata e a trabalhar em grupo, dentre outras coisas. Mas, também, foi um tempo de esclarecimentos sobre como é a pesquisa em nosso País e como precisamos ser perseverantes se quisermos seguir esse caminho”, desabafou. A propósito, Biomedicina não era o sonho profissional de Mariene na infância. Até chegar a ela a pesquisadora quis ser professora, veterinária e médica pediatra, aliás, foi estudando para o vestibular de Medicina que conheceu a Biomedicina e o amor pela profissão desabrochou.

No ano de 2014, aos 22 anos de idade, surgiu o que seria o “divisor de águas” da vida de Mariene Amorim: a bolsa para fazer graduação sanduíche na Universidade Estadual da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. A bolsa foi custeada pelo Programa Ciências sem Fronteiras, uma iniciativa do então Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em parceria com o Ministério da Educação, ação fomentada pelo CNPq, pela Capes e pelas secretarias de Ensino Superior e de Ensino Tecnológico do MEC.

Na Universidade norte-americana ela conseguiu um estágio voluntário no Laboratório de Virologia, coordenado pelos professores Dr. Dennis Brown e Dra. Raquel Hernandez, que estudavam arbovírus, dentre eles, Dengue e Chikungunya, e foi nesta época que o interesse pela virologia apareceu. “Foi então que me dei conta de como esses patógenos têm influenciado no desenvolvido da sociedade ao longo dos anos, inclusive no Brasil”, comentou.

O tempo nos Estados Unidos, segundo a cientista, foi uma época incrível e a possibilitou conhecer pessoas que classifica como maravilhosas e que, agora, fazem parte da vida dela. “Aprendi a me virar. Tive que deixar minha timidez de lado e aprender a falar em público, e alto, e em outro idioma. Conheci pessoas especiais no laboratório onde estagiei e sou muito grata pela oportunidade e confiança que me deram. Vivenciei diversas situações que me fizeram crescer e acreditar mais em mim mesma, e isso tudo foi muito importante para que eu seguisse na carreira científica”, reconheceu.



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