Empreender para conciliar: mães atípicas reinventam a vida profissional

06/06/2026


Por Fernanda Spínola

Nem todo negócio nasce de um sonho antigo. Alguns nascem do medo. Da necessidade. Do diagnóstico que muda uma vida inteira em poucos minutos.

Para muitas mães atípicas, aquelas que cuidam de filhos com deficiência ou demandas intensas de suporte, empreender não foi uma escolha planejada. Foi a alternativa encontrada para continuar trabalhando em uma rotina moldada por atendimentos médicos, acompanhamentos escolares e responsabilidades que não cabem em jornadas tradicionais de oito horas.

Foi assim com Millena.

Quando entrou em uma sala de ultrassom para descobrir o sexo do bebê, Millena Talyta, então com apenas 23 anos, imaginava sair dali escolhendo nomes, roupas e cores para o enxoval. Em vez disso, ouviu que talvez o filho não sobrevivesse.

Sem líquido amniótico, com suspeita de ausência dos rins e diante de uma sequência de diagnósticos incertos, ela passou a viver entre consultas, viagens de Aracaju a Salvador e a expectativa constante de perder o bebê ainda durante a gestação. “Os médicos falavam que eu precisava esperar porque, a qualquer momento, poderia sofrer um aborto espontâneo”, lembra.

Mas Davi nasceu.

Hoje, aos olhos de quem chega ao pequeno estúdio de cílios e design de sobrancelhas montado por ela, talvez seja difícil imaginar que aquele espaço também funciona como extensão da maternidade. Em muitos atendimentos, o filho permanece no colo da mãe enquanto ela trabalha. Em outros, fica ao lado da maca, observando cada movimento.

Davi nasceu com hemimelia fibular, uma condição rara que afeta a formação de um dos ossos da perna. Desde então, o cotidiano da família passou a girar em torno de adaptações. Foi nesse contexto que a vida profissional de Millena precisou seguir um caminho diferente daquele que havia planejado. 

“Quando ele era bebezinho, não conseguia fazer muita coisa, mas sempre foi muito para frente. A gente ficava com muito medo dele cair, principalmente quando deu os dois primeiros passinhos na sala de casa. Mas não. Ele foi. E, se eu estivesse trabalhando fora, não teria vivenciado nada disso. Quem iria viver isso com ele seria outra pessoa. Graças ao meu trabalho ser mais flexível, pude estar presente nesses pequenos momentos da vida dele”, conta.

A experiência de Millena reflete uma realidade compartilhada por muitas pessoas. Em diversas famílias, a necessidade de adaptar horários, reorganizar prioridades e garantir presença no cotidiano dos filhos acaba influenciando escolhas relacionadas ao trabalho.

Um levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), divulgado em 2024, mostra que 67% das mulheres empreendedoras brasileiras têm filhos. Entre elas, 68% asseguram que a maternidade influenciou diretamente a decisão de abrir um negócio.

No caso das mães atípicas, essa decisão costuma vir acompanhada de renúncias silenciosas.

Formada em enfermagem, Millena precisou deixar o trabalho formal após o nascimento do filho. “Quando ele nasceu, eu já sabia que teria de escolher entre trabalhar e cuidar dele, porque, geralmente, quando a gente trabalha, passa o dia todo fora. Tinha que deixar ele com alguém, e eu ficava com medo se ele iria se adaptar, se essa pessoa cuidaria dele tão bem quanto eu, se ajudaria ele a se desenvolver da mesma forma que eu ajudei. Então, tive que tomar a decisão de deixar o mercado de trabalho para poder cuidar dele”, explica.

Há pouco mais de três anos, quando decidiu empreender, ela montou o primeiro espaço de trabalho em um pequeno quarto na casa da avó. Uma parede rosa, uma maca simples e uma cadeira de plástico marcaram o início de um negócio que atualmente contribui para a renda da família e garante algo que ela considera ainda mais importante: a possibilidade de acompanhar de perto o crescimento do filho.

“Tem horas que ele reclama: ‘Ai, mamãe, dói a perna’. Dói. Realmente dói. Mas ele consegue se desenvolver muito bem. Então, o que mais me deixa feliz é ver o desenvolvimento dele ao andar. Ver que consegue ser independente. Pegar o biscoito que quer. Pegar a roupa que quer. A independência dele é o que mais me motiva a continuar”, fala.

O que começou em um quarto improvisado cresceu aos poucos. Vieram cursos de aperfeiçoamento, novos equipamentos, mais clientes e, posteriormente, um espaço próprio. A atividade, que surgiu como alternativa diante das demandas da nova realidade familiar, acabou se consolidando como profissão.

 

Uma divisão ainda desigual 

Na análise da advogada Ana Thaise, que também é mãe atípica e empreendedora, essa transformação está ligada a uma construção cultural que ainda atribui às mulheres a maior parte das responsabilidades relacionadas ao cuidado. 

"Existe muito essa dicotomia de que a mulher precisa escolher. Ou ela é mãe ou ela tem uma carreira profissional. São poucas as que conseguem conciliar isso sem sentir o peso dessa cobrança", sinaliza.

Ela aponta que, mesmo quando existe participação do parceiro ou rede de apoio, a figura feminina continua assumindo a responsabilidade principal pelos filhos, o que influencia diretamente decisões relacionadas ao trabalho, à renda e ao desenvolvimento profissional. "É uma obrigação muito velada de que a mãe é quem precisa dar conta de tudo", acrescenta.

Para a advogada, esse cenário ajuda a explicar por que tantas mulheres interrompem carreiras, mudam de profissão ou buscam formas alternativas de trabalho após a maternidade.

"Eu tenho amigas que vinham de trajetórias profissionais consolidadas e tiveram a vida completamente modificada depois que se tornaram mães. Várias precisaram mudar de emprego, reduzir o ritmo da carreira ou fazer escolhas que não imaginavam antes da maternidade. O mercado de trabalho penaliza sim. Muitas vezes são situações silenciosas. É o colega que não entende um atraso porque você precisou levar o filho ao médico. É o chefe que não compreende uma ausência. É a falta de empatia diante de uma situação que exige atenção constante", comenta.

A economista Marta Mendes avalia que a crescente saída do mercado formal após a maternidade evidencia limites estruturais ainda presentes nas relações de trabalho. A rigidez das jornadas e a ausência de políticas de acolhimento fazem com que muitas pessoas encontrem no trabalho autônomo ou no empreendedorismo uma alternativa para permanecer economicamente ativas.

Caminho cada vez mais comum

Segundo um estudo do Sebrae a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNAD Contínua), o Brasil já ultrapassa a marca de 10 milhões de mulheres à frente de negócios. Nos últimos 10 anos, o país registrou um crescimento de 27% no empreendedorismo feminino, avanço 16 pontos percentuais superior ao observado entre os homens no mesmo período.

Em Sergipe, o movimento também se repete, mais de 102 mil mulheres comandam os próprios negócios.

De acordo com Marta Mendes, parte desse crescimento está relacionada à expansão das redes sociais e plataformas digitais, que ampliaram as possibilidades de transformar habilidades e conhecimentos em atividade econômica. A economista sublinha, entretanto, que a maternidade atípica carrega uma sobrecarga financeira significativa, inflacionada por despesas com terapias, medicamentos, suporte especializado, transporte e educação. 

Além do aspecto financeiro, o controle sobre os próprios horários pesa de forma decisiva nas escolhas femininas. É o que defende a pesquisadora da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e doutora em Administração, Rúbia Côrrea. 

“O empreendedorismo tem se tornado uma importante alternativa de renda e autonomia para muitas mulheres, principalmente por possibilitar a criação das próprias oportunidades de trabalho e geração de renda. Hoje, é possível encontrar no pequeno negócio, na prestação de serviços e até nas redes sociais uma forma de conquistar ou ampliar sua independência sobre sua rotina e decisões profissionais”, afirma.

Foi nesse caminho que Bárbara Lima encontrou a confeitaria.

Mãe de duas meninas autistas, ela encontrou na produção de bolos e doces uma forma de complementar a renda sem abrir mão do acompanhamento das filhas. Há quatro anos, trabalha sob encomenda na própria casa, onde vida pessoal e atividade profissional compartilham o mesmo espaço.

A filha mais velha, Mel, hoje com 13 anos, também participa da produção dos bolos e doces. Sempre que possível, ajuda a mãe em pequenas tarefas e acompanha de perto o trabalho desenvolvido dentro de casa. A convivência diária com o negócio também despertou planos para o futuro. Mel sonha em ter o próprio empreendimento e pretende abrir um salão de beleza quando crescer.

Após concluir o curso técnico de enfermagem e iniciar a graduação na área, Bárbara se deparou com dificuldades para ingressar e permanecer no mercado de trabalho. A maternidade, os problemas de saúde e, posteriormente, as demandas relacionadas ao acompanhamento das filhas fizeram com que os planos profissionais precisassem ser revistos mais de uma vez.

Durante um período, Bárbara levava os bolos para vender na frente das clínicas onde as filhas realizavam terapias. Enquanto aguardava o fim dos atendimentos, aproveitava o movimento de pacientes e familiares para oferecer os produtos. Hoje, os pedidos chegam principalmente pelo Instagram e são preparados na cozinha de casa.

A mudança da calçada para a vitrine digital das redes sociais não representou apenas uma nova forma de vender. Também transformou a maneira como Bárbara se comunica com os clientes. Em vez de depender exclusivamente da presença física em determinados locais, ela passou a gravar, editar e publicar receitas no Instagram, utilizando a plataforma como vitrine para divulgar os produtos e ampliar o alcance do negócio.

Quando recebe encomendas, o marido, motorista de aplicativo, assume parte dos deslocamentos para as consultas das crianças. Em outros momentos, a mãe ajuda com os afazeres. Há dias em que o trabalho precisa esperar. Em outros, é a família que reorganiza a própria rotina para que ele aconteça.

Além da renda

Para a pesquisadora Rúbia Côrrea, administrar o próprio negócio pode transformar a relação dessas mulheres com o trabalho e com seus projetos de vida. 

“Quando promove autonomia financeira, visibilidade social e maior participação nos espaços de decisão, o empreendedorismo ultrapassa a dimensão econômica e passa a impactar também a vida pessoal, familiar e social. Muitas empreendedoras passam a se perceber de forma mais confiante e valorizada, o que fortalece a autoestima e amplia o sentimento de protagonismo sobre suas próprias trajetórias”, pontua.

Embora não sejam a principal fonte de sustento da família, os negócios ajudam a viabilizar uma rotina mais compatível com as necessidades dos filhos. 

Essa flexibilidade, porém, não elimina os desafios da maternidade atípica. À carga diária de compromissos somam-se sentimentos de isolamento, exaustão e preocupações constantes, que frequentemente impactam a saúde física e emocional.

Os desafios assumem formas diferentes. Para Millena, a ansiedade faz parte do dia a dia. Para Bárbara, soma-se a fibromialgia, condição que compromete justamente as mãos e os braços, essenciais para a produção dos bolos e doces. 

“A fibromialgia afeta principalmente minhas mãos e braços, justamente meu instrumento de trabalho. Muitas vezes eu faço bolo, mexo massa, confeito salgados sentindo dor. Depois eu me arreio, deito, tomo um remédio, mas eu não posso parar”, relata a confeiteira.

O acúmulo permanente de demandas faz com que muitas pessoas vivam em estado constante de alerta, deixando as próprias necessidades em segundo plano, destaca a psicóloga Geane de França. 

“Muitas mães passam anos priorizando exclusivamente os filhos. O cuidado consigo mesmas, os projetos pessoais, o lazer e até questões relacionadas à própria saúde acabam sendo adiados ou abandonados porque existe uma demanda permanente que parece mais urgente”, salienta.

A psicóloga observa que esse processo pode afetar a identidade dessas mulheres. Aos poucos, elas deixam de ser reconhecidas e de se reconhecer para além do papel de cuidadoras.

Geane esclarece que atividades profissionais, interesses pessoais e outros espaços de construção individual ajudam a preservar dimensões da vida que costumam ser ofuscadas pelas exigências do cotidiano.

“Em muitos casos, a mulher passa a existir apenas como mãe. Ela deixa de investir em aspectos importantes da própria vida e vai perdendo espaços de realização pessoal, profissional e social. Isso gera sofrimento, porque nenhuma pessoa consegue sustentar por muito tempo apenas uma dimensão da própria existência”, aponta.

O desafio de permanecer 

Se abrir o próprio negócio surge como uma alternativa viável para desenhar a própria rotina, mantê-lo ativo exige conciliar a gestão empresarial com um cotidiano que não para. Na prática, a jornada dessas empreendedoras vai muito além do atendimento no estúdio ou da entrega das encomendas de doces; ela envolve o gerenciamento minucioso do tempo entre salas de espera, deslocamentos para consultas e o acompanhamento do desenvolvimento dos filhos.

Essa realidade também tem levado instituições de apoio ao empreendedorismo a adaptar parte de suas ações às demandas de mulheres que conciliam trabalho e maternidade. Mariana Araújo, gestora do programa Sebrae Delas em Sergipe, destaca que a maioria das participantes das capacitações é formada por mães, o que exigiu um olhar mais atento para questões como flexibilidade de horários, acolhimento e fortalecimento das redes de apoio.

“Praticamente toda ação do Sebrae Delas tem crianças dentro da sala. A gente já tem esse olhar. Muitas mulheres participam das capacitações acompanhadas dos filhos, e buscamos criar condições para que elas consigam se qualificar sem precisar escolher entre o negócio e o cuidado”, revela.

Mariana pondera, contudo, que a flexibilidade associada ao empreendedorismo não elimina as dificuldades. “A gente fala muito sobre a importância de não romantizar o empreendedorismo. Tem pessoas que enxergam nele uma possibilidade de flexibilidade, mas acabam acumulando também toda a rotina da casa e do negócio. Quando existe planejamento, ele pode trazer autonomia e geração de renda, mas isso não elimina os desafios”, conclui.

As trajetórias de Millena e Bárbara ajudam a ilustrar essa complexidade. Em ambas as histórias, o trabalho trouxe mais autonomia para organizar a rotina em torno das necessidades dos filhos, mas não eliminou os problemas. Mesmo assim, elas aprenderam a administrar muito mais do que um negócio.

Ambas seguem reorganizando os dias para permanecer presentes na vida dos filhos sem abandonar completamente os próprios projetos. Não é uma rotina simples nem livre de renúncias. Mas é a forma que encontraram de continuar trabalhando em uma realidade que raramente se adapta às necessidades de quem cuida. 



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