
Artesanato sergipano: valorização tem modificado a vida de artesãos
06/06/2026
Por Andréa Moura
De ponto em ponto; de entrelace em entrelace dos fios da palha, da corda e dos mais variados tipos de linha; a cada entalhe feito na madeira, o artesanato sergipano tem ganhado espaço, respeito e reconhecimento dos mercados local, nacional e internacional, em escalas cada vez maiores; contribuído para o crescimento da economia criativa no PIB sergipano, e para a melhoria das condições de vida de milhares de família. De acordo com a Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Empreendedorismo (Seteem), Sergipe conta, atualmente, com mais de cinco mil artesãos ativos.
De acordo com a publicação “Ações para o desenvolvimento do artesanato do Nordeste”, produzida pelo Banco do Nordeste no ano de 2002, o artesanato sergipano, que integra o vasto leque da economia criativa, é composto pelas seguintes tipologias: alimentação regional, pinturas, artesanato artístico, instrumentos musicais, artesanato de confecção, madeira, bordados, metal, cerâmica, pedras, couro, rendas (bilro, irlandesa, filé, tricô, crochê, renascença), foguetearia, tapeçaria (algodão cru, fibra de buriti, corda), cestarias ou palharia, tecelagem (algodão cru) e gravuras.

O artesanato de Sergipe é lindo, diverso e rico em detalhes. Tem o barco de fogo e as espadas que encantam os festejos juninos e são fabricadas no município de Estância; as bonecas em palha de milho construídas por delicadas mãos de Simão Dias; e a arte em madeira feita por Véio, em Nossa Senhora das Glória. Tem, ainda, os carros de bois de Poço Redondo e Tomar do Geru; os objetos e esculturas em barro de Santana do São Francisco; a Renda Irlandesa de Divina Pastora; e o Richelieu, de Tobias Barreto, entre muitos outros.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, analisada pela Fundação Itaú e divulgada em 2025, Sergipe apresentou o melhor desempenho do Brasil em relação à criação de postos de trabalho no setor da economia criativa, um crescimento de 39% na comparação entre o terceiro trimestre de 2022 e de 2024.
Também em 2025, o Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil, uma publicação da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), mostrou que a economia criativa representa 1,2% do PIB estadual, fazendo com que Sergipe ocupe a 3ª posição do Nordeste. De 2015 para 2023, o setor saiu de um PIB estimado de R$ 424,10 milhões gerados pelo setor, para uma estimativa de R$ 803,21 milhões. Já no Brasil, a economia criativa representa 3,59% do PIB e gera 7,4 milhões de empregos diretos e indiretos.
Em 2024, a Seteem contabilizou expressivo crescimento nas vendas do artesanato sergipano durante os eventos promovidos ou patrocinados pelo Governo de Sergipe, registrando em 12 meses o total de R$ 2.086.316,86, um aumento de 33,93% em relação ao auferido no ano anterior (2023).
Mestre Passos: talento e generosidade que ultrapassaram as fronteiras do Brasil

O corpo franzino abriga mais que mãos habilidosas, olhar aguçado, e ouvidos atentos: ele guarda uma alma grandiosa, em talento e generosidade, e que atende pelo nome de José Santos de Araújo, mais conhecido por Mestre Passos. O artesão, artista plástico e luthier, possui 70 anos de idade completados no dia 26 de fevereiro de 2026, mas está na lida há 58 anos. Ele é o principal nome no estado quando se fala em conserto e fabricação de instrumentos de corda – violão, violino, violoncelo, contrabaixo e cavaquinho - e manutenção em pianos, profissão exercida há 38 anos.
Mas Mestre Passos também é nautomodelista; pinta quadros em óleo sobre tela que retratam o cotidiano da cidade, os pescadores e os casarios sancristovenses. É, ainda, escultor de lindas obras em madeira, como as imagens de São Francisco de Assis, que está na Igreja dos Capuchinhos, em Aracaju; de Nosso Senhor dos Passos, de quem é devoto, e Nossa Senhora das Dores, ambas na Igreja Matriz de São Cristóvão, a Nossa Senhora da Vitória, e de onde saem uma vez por ano para uma das maiores manifestações religiosas do Nordeste, a Romaria de Senhor dos Passos.

“Levei cerca de oito meses para fazer cada uma dessas esculturas e entregar prontas, com vestes, cabelo e tudo o que têm direito. Doei o Senhor dos Passos e a Senhora das Dores em 2023 para a igreja, e no ano passado, em agosto, doei a Santa Dulce dos Pobres para a igreja do Carmo, onde ela está. Já fiz muita coisa, muitos trabalhos, muitos instrumentos, mas a obra da minha vida foi o Senhor dos Passos”, comentou emocionado.
Ateliê é quase um ponto turístico
O ateliê de Mestre Passos, instalado na ladeira do Açougue, é repleto de histórias. Logo na entrada são encontrados quatro grandes pianos que estão sendo consertados por ele, inclusive, um deles, um imponente alemão Essenfelder. “Não toco, mas sei de tudo o que ele precisa, já vai sair daqui tocando certinho”, afirmou. Marceneiro e carpinteiro naval por herança, pois foi o único dos irmãos a seguir a profissão do pai, Mestre Passos conheceu a outra paixão, os instrumentos musicais, em 1988, quando foi convidado a refazer a marcenaria de um piano no Conservatório de Música de Sergipe.

“Tinha um pernambucano que dava manutenção nos pianos, ele formado na Itália, mas não ensinava nada para nós, a gente ficava só na marcenaria mesmo. Até que certa vez ele estava cheio de serviço e teve que nos ensinar, e eu aprendi tudo o que era preciso. No ano seguinte, em 1989, me formei em luthieria, na Paraíba, e desde então, já perdi as contas de quantos instrumentos construí e para onde eles foram. Eu sei que tem instrumentos feitos por mim no Brasil todo, como na Orquestra Sinfônica da Paraíba, na de Sergipe, e com músicos de diversos países, como Estados Unidos, Finlândia e Bélgica.
Luthieria é a arte e técnica de construir, consertar e regular instrumentos musicais, especialmente os de corda, e nela, Mestre Passos é referência no país. Há 29 anos ele é o responsável pela fabricação dos instrumentos usados pelo grupo de música medieval e renascentista Renantique, reconhecido como Patrimônio Cultural Material e Imaterial de Aracaju.
Mestre Passos também não tem ideia de quantas pessoas formou luthier, e detalhe, sem cobrar R$ 1 sequer.

Desde que comecei que chega gente à minha porta me pedindo para ensinar, e eu faço, sem pedir nada em troca, porque não gastei nada para aprender, recebi tudo de graça. Se bem que teve um professor de violino, a quem ensinei a arte, e ele hoje tem uma escola de violino, no Mato Grosso, onde também ensina a fabricação, só que cobra por tudo (risos). Muitas das pessoas a quem ensinei hoje vivem do ofício. Elas estão espalhadas pelo Brasil, e essa é uma maneira de fazer com que o meu legado sobreviva”, declarou Mestre Passos, de forma muito simples e sem qualquer tipo de ostentação.
Ensinar o ofício é motivo de felicidade
E justamente por ser muito procurado por quem quer aprender, é que um dos desejos de Mestre Passos é levar o ateliê para um lugar maior para conseguir realizar as atividades que tanto gosta, com espaço e conforto suficientes. E esse é um pleito muito justo, porque no mesmo ambiente onde constrói os instrumentos e forma novos apaixonados pela luthieria, ele também dá vida às telas, a maioria em preto e branco, e em tamanhos consideráveis, pois a preferência dele é pelas obras maiores e que possam retratar bem as belezas que enxerga pelas ruas da cidade natal.
Lá, também, constrói as esculturas em madeira e que geralmente possuem tamanho natural. Inclusive, mais uma santa está em processo de confecção, mas não iremos falar qual é, pois será uma surpresa.
A beleza e importância do trabalho realizado por Mestre Passos lhes conferiram uma sala com o nome dele no Museu de Arte Sacra de São Cristóvão, e em 2024, o recebimento do título de Mestre da Cultura Popular de São Cristóvão, para somar às muitas homenagens já recebidas, e que estão emolduradas em quadros pendurados na parede.

Dedicado, inquieto e incansável, ele está quase que diariamente no ateliê, das 7h até perto da meia noite, trabalhando e atendendo a quem chega, mesmo sem ter hora marcada. A exceção acontece apenas duas vezes por mês, no máximo, quando passa cerca de três dias, em cada um dos momentos, pescando com amigos. “Não tenho vícios. Costumo brincar que não aprendi a tocar para não virar boêmio e começar a beber, então, a pescaria é o meu hobby, o meu momento de descontração”, brincou.
“Ser artesão é uma maneira de trabalhar para si próprio, de viver daquilo ama, e acho que não tem coisa melhor que essa: trabalhar com amor e dedicação dentro de casa e ganhar o seu dinheiro. Minhas peças estão espalhadas pelo mundo, ajudando a divulgar minha cidade natal, e podem ser reconhecidas pela assinatura que carregam e pelo estilo de mão que desenvolvi para os instrumentos de corda. Sou uma pessoa realizada com o que faço e feliz por ter ensinado o ofício a tanta gente”, concluiu o Mestre.
Renda Irlandesa: de Divina Pastora para o Moët Hennessy Louis Vuitton

Localizada na microrregião do Cotinguiba, no leste sergipano, a pequena Divina Pastora, com população estimada pelo IBGE em 4.436 pessoas, é detentora de um grande tesouro, que tem sido cobiçado nacional e internacionalmente: a Renda Irlandesa, registrada pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2008, pelo "modo de fazer" único, transmitido de geração em geração. Ainda não se sabe a origem exata desse artesanato, se na Irlanda mesmo, como sugere o nome, mas o que se tem certeza é de que a perpetuação e sucesso dessa renda se deve às artesãs sergipanas, detentoras do saber e fazer.
E desde meados de 1996 que a história desse artesanato tem ganhado novos capítulos graças ao estilista sergipano Althair Santo, que levou a Renda Irlandesa para passarelas como a São Paulo Fashion Week, a Fashion Rio, Innovamoda, o Prêt-à-Porter de Paris, e para o Brasil Eco Fashion Week 2023, além ser exibida em rede nacional em costuras exibidas em produções da TV Globo, a exemplo da minissérie Mad Maria (2005), nos figurinos usados pela atriz Ana Paula Arósio; e na novela Cordel Encantando (2011), nas vestes usadas pela protagonista Açucena, interpretada pela atriz Bianca Bin; bem como no filme Orquestra dos Meninos (2008), em roupas usadas pela atriz Priscila Fantin.
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Agora, Althair Santo e a Renda Irlandesa de Sergipe estão prestes a começar um novo capítulo: fazerem parte Grupo LVMH, maior conglomerado de luxo do mundo, sediado em Paris, na França, comandando por Bernard Arnault e fundado em 1987 após a fusão da Louis Vuitton com a Moët Hennessy. O Grupo possui mais de 75 marcas de alto padrão, entre elas Dior, Fendi, Tiffany & Co, Givenchy e Marc Jacobs.
“Fui aceito pelo maior conglomerado de luxo do mundo, e estou passando por um curso com eles em São Paulo, para onde irei nos próximos dias. A minha ideia é levar a Renda Irlandesa para esse mercado de luxo porque ela precisa estar lá, pois por mais que eu faça a mesma peça, com a mesma artesã, o ponto não será o mesmo, e para mim, luxo mesmo, apesar de todo o avanço tecnológico, é o feitio manual, é a nossa ancestralidade. Por isso que em todo o momento o meu trabalho tem pontos que representam o ser sergipano, mas de uma forma contemporânea”, explicou Althair Santo.
De 24 a 28 de junho, o estilista e uma artesã da Renda Irlandesa estarão em Londres, participando da 4ª edição da exposição Brazil Creating Fashion for Tomorrow (BCFT), que em livre tradução seria “Brasil criando a moda do futuro”, que acontecerá no The Bomb Factory Marylebone. O evento tem como tema “Caatinga: stitching resilience”, integra as ações da semana de ação e clima de Londres, e tem como objetivo principal promover a moda circular, o uso de matérias-primas regenerativas e valorização do artesanato brasileiro.
Casamento que dura três décadas
O primeiro contato de Althair Santo com a Renda Irlandesa aconteceu entre 1995 e 1996, quando ele ainda estava na faculdade do Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil, o CTI, no Rio de Janeiro, referência na América Latina no ensino de Design de Moda.
“Precisava desenvolver meu projeto de moda para a conclusão de curso, mas não queria fazer nada com tecido que tivesse polímero de petróleo na composição, queria algo na pegada artesanal, usando o máximo de tecidos naturais, como linho ou algodão. Então olhei para as minhas reminiscências da infância perto da fábrica de algodão em Neópolis, onde nasci e cresci. Foi quando descobri na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro um livro que falava sobre as rendas do mundo, e me deparei com a Renda Irlandesa”, rememorou Althair Santo.
Ele então veio a Aracaju, e descobriu que Divina Pastora era o polo desse tipo de artesanato, mas antes de ir até lá, buscou orientação junto à antropóloga Beatriz Góis, professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Em seguida, conversou com o economista do Sebrae, William Guerra, para saber mais sobre a economia da região. Municiado das informações passadas por esses dois profissionais, Althair partiu para o interior e durante um mês morou em Divina Pastora.
“Estou falando da década de 90, creio que o ano era 1997, e naquela época não existia cooperativa, associação ou coisa do tipo. Fui recebido e muito bem-acolhido pelas artesãs mestras dona Zu, dona Josefina e dona Alzira, ela, por sinal, recebeu este ano o título de artesã mestra. Com elas aprendi o formato, como fazer o processo do risco da renda, do cordão de lacê que serve de suporte, as linhas e tipologias dos pontos, porque enquanto design, é importante para mim ter esse embasamento para poder criar”, contou o estilista.
Ele explicou que as artesãs, desde o início do trabalho, são cocriadoras no processo, porque ele não pega a renda pronta, corta de qualquer jeito e aplica em uma roupa que esteja criando, pois isso, segundo Althair Santo, além de não ser legal e profundamente desrespeitoso, configuraria apropriação cultural. “Eu crio todo o processo junto com a artesã, dentro do tema, e depois elas abrem o desenho criado por mim e transformam em uma renda. É assim que acontece, elas cocriam a peça, elas estão no centro do meu trabalho e é preciso ter respeito”, enfatizou.
Maria Bonita como inspiração

A primeira coleção feita por Santo usando a Renda Irlandesa ressignificou as roupas usadas por Maria Bonita durante o cangaço, inclusive, ela teria sido a primeira, no Brasil, a usar zíper em um vestido. A coleção baseada no cangaço foi apresentada no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, e foi um sucesso, tendo sido a chave que abriu todas as portas dos lugares onde Althair e o trabalho das artesãs de Divina Pastora acessaram. Ele lembrou das várias reuniões feitas com as artesãs nas praças da cidade para poder dar conta dos pedidos e novas produções.
Santo explicou que o propósito das criações que realiza é fundamentado nos princípios de sustentabilidade e responsabilidade social, usando a lupa criativa para projetar o brilho da Renda Irlandesa de Divina Pastora para o mundo. Nas criações, ele respeita o tempo da artesã, e garante que o valor final da peça reflita o esforço, a habilidade e raridade do trabalho manual, além de colocar em cada peça feita uma tag especial onde consta o nome de todas as artesãs que participaram da confecção e o local de origem da renda.
“Faço moda atemporal, não sigo tendências, e o artesanato sergipano sempre terá destaque no meu trabalho, ele será ressignificado, porque nas minhas veias corre o sangue da Sergipanidade, e sou o cara que levanta a bandeira das minhas origens e a defende. Mesmo sem entender direito os processos da academia eu sempre quis falar sobre o lugar de onde saí, das minhas origens, mas de uma forma global, porque a minha aldeia é global. A mulher que usar uma roupa feita por mim em Sergipe poderá vesti-la em São Paulo, Nova Yorque, Japão... e isso me deixa muito honrado”, afirmou Althair Santo.
Wilson Bahia: do lixo ao luxo

Galhos e troncos resultantes de podas de árvores, garrafas de vidro e latinhas de alumínio descartadas após o uso, são as matérias-primas do trabalho minucioso, cheio de vida e cor realizado por Wilson da Silva, ou melhor Wilson Bahia, de 40 anos de idade, artista plástico com raízes no município sergipano de Simão Dias, porém nascido no estado vizinho e cujo nome carrega artisticamente. Ele viu a carreira ganhar um novo rumo, desabrochar para o mundo, ao chegar a Sergipe, há cerca de 10 anos.
“Comecei a fazer as esculturas em Salvador, mas lá eu não tinha a conexão com a arte como tenho aqui, e minhas peças também não tinham a aceitação que teve e tem tido em Sergipe. Foi depois de chegar aqui que ganhei o mundo, literalmente, que várias portas se abriram e passei a viajar para outros estados para apresentar o meu trabalho. Já participei de exposições no Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia, São Paulo e Brasília, e tudo isso graças a Sergipe. Hoje, minhas peças estão em galerias e casas de arte em Aracaju, São Paulo e Ceará”, contou o artesão e artista plástico.

Além das esculturas em troncos, que retratam especialmente as manifestações folclóricas sergipanas, a exemplo dos Parafusos de Lagarto, e o Reisado de Mestre Satu, de São Cristóvão (falecido em 2021 aos 80 anos), os galhos pintados dão vida a personagens do cotidiano, principalmente o sancristovense, com o qual Wilson Bahia tem mais contato por residir no povoado Cabrita, em São Cristóvão. Nesse contexto, o pescador com a corda de caranguejo em mãos é uma das belezas por ele retratada. “Tudo me inspira, inclusive o que as pessoas consideram feio, porque neles também encontro beleza”, frisou.
Autodidata, afirma que se tivesse que definir sua presença no mundo das artes seria como um artista plástico completo, porque além das esculturas, também pinta quadros em óleo sobre tela. Seja na madeira ou nos quadros, a compleição das cores vibrantes é outra marca registrada do trabalho de Wilson Bahia, pois segundo ele, a vida tem que ter cor, alegria.
As artes o tiraram do isolamento
Foram as artes que o salvaram de uma autorreclusão provocada pelo fato de ter sido criado sem a presença da mãe, que faleceu quando ele tinha menos de dois anos de idade. Criado pelo pai, vigilante de uma pedreira em Alagoinhas, interior da Bahia, ele contou que vivia muito de um lado para outro, em casa de parentes, como avó e tios.
“Meu pai precisava trabalhar e me deixava em um lugar diferente toda vez. Essa situação, associada à perda da minha mãe, me tornou uma pessoa introspectiva, muito calada, tímida e sem amigos. Um dia, mexendo no lixo, encontrei páginas de uma revista que falava sobre os grandes mestres das artes, com imagens de obras de Portinari, Di Cavalcante, e aquilo abriu minha visão, porque eu já desenhava, mas não mostrava o que fazia para ninguém. Comecei a estudar, e quando mudamos para Salvador passei a agir de outro modo, a me abrir mais, e foi a partir desse ponto que comecei a vender meus desenhos e a melhorar minha condição de vida. A arte me salvou”, afirmou Bahia.

Casado e pai de um filho, o Henrique, que já demonstra ter a mesma aptidão artística do pai, Wilson Bahia montou a oficina e ateliê dentro da própria casa, mas os planos da família é mudar para um lugar maior e mais acessível para visitas, principalmente dos turistas. “Pensamos em mudar ou para a sede de São Cristóvão ou para Aracaju mesmo, para estarmos mais perto dos turistas. Aqui, na Cabrita, poucas pessoas vêm conhecer meu trabalho, seja pelo acesso, que é ruim, ou pelo preconceito com o local. Dia desses duas clientes desistiram de vir quando enviei a localização da minha casa”, relembrou.
Outro ponto que faz Wilson Bahia querer sair da Cabrita é a falta de um bom serviço de transporte público, o que torna a mobilidade urbana praticamente inexistente. “Carros de aplicativo quase não entram aqui, a mesma coisa são os taxistas, e o fornecimento de ônibus é muito precário, sem falar que o último passa pela rodovia João Bebe Água à meia-noite, ou seja, temos que saltar na pista e caminhar mais dois quilômetros, no mínimo, para podermos chegar em casa. Isso tem inviabilizado a minha participação em eventos importantes, a exemplo das feiras realizadas na Orla de Atalaia, em Aracaju”, lamentou o artista plástico.
Arte é sobrevivência

Wilson e a família vivem única e exclusivamente da arte, por isso o plano de ser cada vez mais conhecido como o artista plástico Véio, a quem ele admira, não tem a ver com ego, mas com algo muito mais essencial: sobrevivência. Além de mudar de localidade, outro desejo de Bahia é realizar uma exposição individual e conseguir fazer com que as pessoas valorizem o trabalho que desenvolve em qualquer lugar, não apenas quando estiver em galerias ou casas de arte.
“Infelizmente já ouvi de pessoas que não pagariam o valor que cobro em uma escultura porque são feitas de lixo, de galhos de árvore e latinhas de refrigerante. Isso dói, porque acima de tudo, é falta de respeito. E o mais engraçado é ver que essas mesmas pessoas chegam em galerias famosas e pagam muito mais caro por minha obra, sem fazer comentários desse tipo. Infelizmente, muitas vezes é preciso ir para outros estados, para outros países, para termos nosso trabalho valorizado”, observou o artista.
E ainda falando em planos para o futuro, está na lista começar a formalizar o negócio para ter, também, melhor poder de negociação das obras que produz. “Essa parte de gerenciamento ficará toda com Cris, minha esposa. Aos poucos vamos nos organizando e transformando tudo o que sonhamos em realidade”, comentou esperançoso.


